Você acorda no dia seguinte a um treino longo e sente aquela fisgada aguda na canela ou no joelho. Imediatamente, você procura o culpado. Você olha para os seus pés, analisa o desgaste do solado e toma uma decisão. Consequentemente, vai até a loja mais próxima e gasta uma fortuna no último lançamento com “amortecimento máximo” ou “controle de estabilidade”.
Você tem certeza de que o calçado velho era o problema e que a nova tecnologia vai curar a sua dor. Contudo, duas semanas depois, a lesão volta ainda pior.
Essa é a dura realidade sobre tênis de corrida e lesões. Como treinador, eu preciso te falar a verdade que a indústria calçadista tenta esconder: não é o seu tênis que está te machucando, e não é um tênis novo que vai te curar.
A Falsa Promessa da Tecnologia
Primeiramente, precisamos olhar para os dados históricos. Desde a década de 1970, a indústria lançou cápsulas de ar, gel, espumas espaciais e, mais recentemente, as placas de carbono.
A promessa sempre foi a mesma: absorver o impacto e proteger as suas articulações. Apesar disso, estudos epidemiológicos mostram que a taxa de corredores que se machucam todo ano permanece cravada na casa dos 50% há quatro décadas.
A relação entre tênis de corrida e lesões é um mito. O seu corpo possui um sistema de amortecimento natural incrivelmente sofisticado. Quando você coloca muita espuma debaixo do pé, o seu cérebro perde a sensibilidade do solo (propriocepção). Como resultado, você acaba pisando com ainda mais força, anulando o suposto benefício do calçado.
O Verdadeiro Culpado: A Gestão de Carga
Se o tênis não é o problema, por que você se machuca? Na esmagadora maioria das vezes, a culpa é da sua gestão de carga.
O corredor amador é impaciente. Ele quer aumentar a distância ou a velocidade muito mais rápido do que os seus tendões e ossos conseguem se adaptar. Você faz a regra do 10% de aumento de volume semanal? Provavelmente não.
Quando você corre mais longe ou mais rápido do que o seu corpo suporta, a sobrecarga tecidual acontece. Portanto, não importa se você está usando um calçado de R$ 200 ou de R$ 2.000. O impacto repetitivo em um tecido que não teve tempo de se recuperar vai gerar uma lesão.
Falta de Força: O Chassi de Fusca
Além do erro no volume de treinos, o amador peca pela falta de força. Você não colocaria pneus de Fórmula 1 em um chassi de Fusca, certo?
Se os seus glúteos são fracos e as suas panturrilhas não têm força explosiva, a carga do impacto vai subir diretamente para os seus joelhos, quadris e tíbias. Ou seja, a melhor “espuma de amortecimento” do mundo é um músculo forte e bem treinado. O agachamento e o fortalecimento de panturrilha previnem muito mais dores do que qualquer tênis da moda.
O tênis de corrida é apenas uma ferramenta de conforto e, em alguns casos, de economia de energia. Ele não é um dispositivo médico.
Você vai continuar gastando em tênis mágicos ou vai começar a fortalecer o seu verdadeiro motor?
Referências Bibliográficas
- Nigg, B. M., et al. (2015). Running shoes and running injuries: mythbusting and a proposal for two new paradigms: ‘preferred movement path’ and ‘comfort filter’. British Journal of Sports Medicine. (O estudo definitivo que prova que prescrever tênis baseado na pisada – pronada/supinada – não previne lesões).
- Napier, C., et al. (2015). Kinetic risk factors of running-related injuries in female recreational runners. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports. (Demonstra que o erro na gestão de carga é o fator de risco primário).
- Willems, T. M., et al. (2006). A prospective study of gait related risk factors for exercise-related lower leg pain. Gait & Posture.





