Treino polarizado, piramidal e HVLIT: guia simples para atletas amadores

Resumo em 15 segundos

  • Base do ano: HVLIT = muito treino leve para criar motor e aguentar volume.
  • Aquecendo para a prova: Piramidal = mantém bastante leve, coloca um pouco de moderado e pouco forte.
  • Perto da prova: Polarizado = muito leve + poucos treinos fortes de verdade. Quase nada no “meio-termo”.

Regra de bolso: “Ou corre fácil de verdade, ou faz poucos treinos realmente fortes.” O erro é viver no meio-termo.

O que é cada modelo (sem jargão)

  • HVLIT (muito volume leve): sessões em que você consegue conversar sem ficar ofegante. Serve para ganhar fôlego, recuperar melhor e treinar mais vezes na semana.
  • Piramidal: maioria leve, uma parte moderada (fala entrecortada) e um pouco forte (quase não dá pra falar).
  • Polarizado: quase tudo leve + poucos treinos fortes do tipo “tiros/intervalados”. Quase nada moderado contínuo.

Teste da conversa

  • Leve: dá para conversar frases completas.
  • Moderado: só sai frase curta.
  • Forte: mal dá pra falar.

Quando usar cada um

  • Começo de ciclo / retorno / foco em constância → HVLIT
    Ideal para construir base, melhorar técnica e aumentar o total de minutos/semana sem dores.
  • 6–8 semanas antes da prova → Piramidal
    Mantém a base e adiciona blocos moderados para aproximar do ritmo de prova.
  • 3–5 semanas antes da prova principal → Polarizado
    Mantém muito leve e adiciona poucos treinos intensos, bem feitos, para “afiar” a performance.

Como fica na sua semana (exemplos simples)

Triathlon — 6 a 8 h/semana

Base (HVLIT):

  • 2 corridas leves (40–60min), 2 bikes leves (45–75min), 2 nados técnicos (30–45min). 1 dia livre/alongamento.
    Piramidal:
  • Mantenha o leve e adicione 1 sessão moderada (ex.: bike com blocos controlados de 8–12min).
    Polarizado:
  • 1 sessão forte na semana (ex.: corrida com tiros curtos) + o restante leve. Se quiser, um toque forte curto na natação.

Corrida — 5 a 7 h/semana

Base (HVLIT):

  • 2 rodagens leves (45–60min) + 1 longo leve (70–90min) + 1 sessão técnica (educativos/fortalecimento).
    Piramidal:
  • Inclua 1 treino moderado (ex.: blocos contínuos um pouco acima do confortável).
    Polarizado:
  • 1 treino de tiros (curtos ou médios) e o resto bem leve.

Dica prática: véspera de treino forte é curta e leve. No dia seguinte, também curto e leve.


Sinais de que você está no caminho certo

  • Consegue repetir semanas parecidas sem viver quebrado.
  • Seus treinos leves ficam naturalmente um pouco mais rápidos com o mesmo esforço.
  • Nos treinos fortes, você mantém a qualidade do início ao fim.

Sinais de alerta

  • Todo treino vira “meio forte”.
  • Dores que não somem e sono ruim.
  • Ritmos caindo nos treinos de intensidade.
    → Resposta: volte para HVLIT por 1–2 semanas, durma melhor e simplifique.

5 passos para aplicar hoje

  1. Escolha a fase (base, aquecimento para prova, pico).
  2. Defina 1–2 treinos “chave” na semana (moderado ou forte, conforme a fase).
  3. Faça o resto realmente leve. Se não dá pra conversar, está rápido demais.
  4. Registre 2 linhas por dia: como dormiu + como terminou o treino.
  5. Semana de descarga a cada 3–4 semanas: reduza tempo total e tire o treino forte.

Perguntas rápidas

Tenho pouco tempo (4–5h/sem). O que priorizar?
Mantenha 70–80% leve e faça 1 treino forte bem feito. Constância > intensidade.

Posso usar polarizado o ano inteiro?
Pode, mas a maioria evolui mais alternando ênfases: HVLIT (construção) → Piramidal (transição) → Polarizado (pico).

E a força?
O ano todo, mudando o foco: mais geral na base, mais específico no meio, manutenção perto da prova.

Triatleta sofre mais na corrida. O que fazer?
Coloque intensidades mais altas, preferencialmente, na bike e natação. Proteja a corrida para reduzir impacto.


Conclusão

Para o atleta amador, o jogo é constância com inteligência. Use HVLIT para construir, Piramidal para aproximar do ritmo de prova e Polarizado para dar o ajuste fino. Simples, prático e sustentável.

Referências Bibliográficas

  1. Seiler, K. S.; Kjerland, G. O. (2006). Quantifying training intensity distribution in elite endurance athletes: is there evidence for an “optimal” distribution? Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, 16(1), 49–56. PubMed
  2. Seiler, S. (2010). What is Best Practice for Training Intensity and Duration Distribution in Endurance Athletes? International Journal of Sports Physiology and Performance, 5(3), 276–291. Human Kinetics Journals
  3. Stöggl, T.; Sperlich, B. (2014). Polarized training has greater impact on key endurance variables than threshold, high-intensity, or high-volume training. Frontiers in Physiology, 5:33. Frontiers
  4. Muñoz, I. et al. (2014). Does polarized training improve performance in recreational runners? International Journal of Sports Physiology and Performance, 9(2), 265–272. PubMed
  5. Helgerud, J. et al. (2007). Aerobic high-intensity intervals improve VO₂max more than moderate training. Medicine & Science in Sports & Exercise, 39(4), 665–671. PubMed
  6. Støren, Ø.; Helgerud, J.; Støa, E. M.; Hoff, J. (2008). Maximal strength training improves running economy in distance runners. Medicine & Science in Sports & Exercise, 40(6), 1087–1092. PubMed
  7. Mujika, I. (2010). Intense training: the key to optimal performance before and during tapering. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, 20(S2), 24–31. Wiley Online Library
  8. Wang, Z. et al. (2023). Effects of tapering on performance in endurance athletes: A systematic review and meta-analysis. Frontiers in Physiology (PMC). PMC
  9. Barnes, K. R.; Kilding, A. E. (2015). Running economy: measurement, norms, and determining factors. Sports Medicine – Open, 1:8. SpringerOpen
  10. Fitzgerald, M. (2014). 80/20 Running: Run Stronger and Race Faster by Training Slower. Penguin Random House. (recurso prático para atletas amadores). 80/20 Endurance

Compartilhe