Limiar de lactato: o que é, como identificar e por que importa no Endurance

O que é o limiar de lactato?

Quando você treina em intensidade leve ou moderada, seu corpo consegue usar oxigênio para gerar energia de forma eficiente. Mas à medida que a intensidade sobe, ele passa a produzir mais lactato (um subproduto do metabolismo energético).

O limiar de lactato é o ponto em que o corpo começa a acumular esse lactato mais rápido do que consegue eliminá-lo. É aqui que você sente a famosa “queima” nos músculos e percebe que não consegue sustentar o ritmo por muito tempo.

👉 Em termos simples: é a fronteira entre um ritmo que você aguenta por muito tempo e um ritmo que vai te fazer quebrar.


Por que o limiar de lactato é importante para o atleta amador?

  • Define seu ritmo de prova: saber o limiar ajuda a regular a intensidade e não largar forte demais.
  • Evita a quebra: treinar respeitando essa zona reduz risco de fadiga precoce.
  • Mede evolução: quando o limiar acontece em ritmos mais rápidos ou potências mais altas, é sinal de que você está melhorando.
  • Personaliza treinos: facilita escolher se o treino do dia deve ser leve, em ritmo de prova ou muito intenso.

Como identificar o limiar de lactato sem exames

Exames de sangue em laboratório são a forma mais precisa, mas você não precisa deles para usar o conceito no dia a dia.

Formas práticas para amadores:

  1. Teste da conversa:
    • Abaixo do limiar → você ainda consegue falar frases curtas.
    • Acima do limiar → falar vira esforço e só sai palavra solta.
  2. Escala de percepção (RPE 0–10):
    • Limiar costuma estar em torno de RPE 6–7 (ritmo “firme”, mas não máximo).
  3. Frequência cardíaca:
    • Aproximadamente 80–90% da sua frequência máxima.
  4. Tempo de sustentação:
    • É o esforço que você aguenta por 40–60 minutos em prova, dependendo da experiência.

Exemplos práticos

  • Corrida: se seu trote fácil é a 6:30/km e você aguenta uma prova de 10 km a 5:00/km, seu limiar provavelmente está por volta de 5:15–5:30/km.
  • Bike: se você roda confortável a 160 watts e quebra acima de 250 watts, seu limiar está perto dos 220–230 watts.
  • Natação: se um pace confortável é 2:10/100m e você consegue sustentar 1:50/100m em 30 min, o limiar está entre 1:55–2:00/100m.

Como treinar para melhorar o limiar de lactato

  • Treinos contínuos em ritmo firme: corridas de 20–40 minutos próximo ao limiar.
  • Blocos intervalados: 3–5 repetições de 8–12 minutos em ritmo de limiar, com pausas curtas (2–3 min).
  • Progressivos: começar em ritmo fácil e terminar no limiar.
  • Constância nos treinos fáceis: paradoxalmente, muitos treinos em Z2 também ajudam a empurrar o limiar para cima, porque constroem a base aeróbia.

👉 Melhorar o limiar significa que você vai conseguir correr, pedalar ou nadar mais rápido sem sentir que está “quebrando”.


Erros comuns sobre o limiar

❌ Achar que precisa treinar forte todo dia para aumentar o limiar.
❌ Confundir limiar com VO₂máx (são coisas diferentes).
❌ Ignorar sinais do corpo e usar só números do relógio.

✅ O segredo é combinar treinos fáceis (Z2) com alguns treinos específicos no limiar.


Perguntas rápidas

Preciso de exame de lactato para treinar certo?
Não. Para amadores, percepção, pace e frequência cardíaca já são ferramentas poderosas.

Devo treinar sempre no limiar?
Não. Ele é importante, mas precisa ser usado poucas vezes na semana. A base deve ser em intensidade leve.

Se eu melhorar o VO₂máx, o limiar melhora junto?
Nem sempre. O VO₂máx mostra a capacidade máxima, mas o limiar indica até onde você aguenta de fato. Ambos podem evoluir juntos, mas não é automático.


Conclusão

Entender o limiar de lactato é como ter um mapa do seu motor. Ele mostra até onde você pode ir sem explodir. Para o amador, não é sobre números perfeitos, mas sim sobre saber ouvir o corpo e ajustar a intensidade.

Treine leve a maior parte do tempo, adicione treinos perto do limiar em momentos estratégicos e você vai evoluir com segurança e constância.


Referências bibliográficas

  1. Billat, V. L. (1996). Use of blood lactate measurements for prediction of exercise performance and for control of training. Sports Medicine, 22(3), 157–175.
  2. Faude, O., Kindermann, W., & Meyer, T. (2009). Lactate threshold concepts: how valid are they? Sports Medicine, 39(6), 469–490.
  3. Jones, A. M., & Carter, H. (2000). The effect of endurance training on parameters of aerobic fitness. Sports Medicine, 29(6), 373–386.
  4. Beneke, R. (1995). Anaerobic threshold, individual anaerobic threshold, and maximal lactate steady state in rowing. Medicine & Science in Sports & Exercise, 27(6), 863–867.
  5. Seiler, S. (2010). What is Best Practice for Training Intensity and Duration Distribution in Endurance Athletes? International Journal of Sports Physiology and Performance, 5(3), 276–291.

Compartilhe