“Eu só quero correr, Lauro. Ficar preso em uma academia puxando ferro não é para mim.”
Se eu ganhasse um real para cada vez que ouço isso de um corredor amador, já estaria aposentado. A verdade nua e crua é que a maioria dos corredores odeia musculação. O problema é que correr não é só calçar o tênis e ter fôlego.
A corrida é uma sucessão ininterrupta de saltos. A cada passada que você dá, o seu corpo precisa absorver um impacto que equivale a 2 a 3 vezes o peso do seu próprio corpo. Agora multiplique isso por 10.000 passos em uma provinha de 10km. Se a sua musculatura não estiver preparada para segurar essa pancada, adivinha quem vai pagar a conta? As suas articulações, seus joelhos, seus quadris e a sua canela.
A Ilusão do “Só Correr”
Muitos corredores acreditam que só aumentar o volume de corrida vai deixá-los mais fortes. É o contrário. O treinamento de endurance (rodagens longas) constrói um baita motor cardiovascular, mas desgasta a musculatura.
Quando a sua perna está fraca, a sua postura “desmonta” no final da prova. Os ombros caem, o quadril afunda, o tempo de contato do seu pé com o chão aumenta e o seu pace despenca. Você não está cansado por falta de ar, você está sofrendo por falta de força.
O Segredo dos Corredores Rápidos: O Efeito “Mola” (Stiffness)
É aqui que a ciência do esporte muda o jogo. No treinamento de alta performance, nós buscamos uma qualidade chamada Stiffness (rigidez do tendão).
Imagine duas bolas caindo no chão: uma bola de boliche e uma bola de borracha dura (aquelas pererecas). A bola de boliche bate no chão, amortece e fica. A bola de borracha bate e volta rapidamente para cima.
Na corrida, você precisa ser a bola de borracha. Quando o seu pé toca o asfalto, o seu tendão de Aquiles e a sua panturrilha devem agir como um elástico esticado. Se você tem força e stiffness, essa energia acumulada na descida é devolvida de graça na subida, te impulsionando para frente. Isso se chama Economia de Corrida.
Se você não faz fortalecimento, a sua perna age como um amortecedor de carro velho. Você gasta muito tempo “afundando” no chão antes de conseguir dar o próximo passo. O seu tempo de contato com o solo é alto, você desperdiça oxigênio e gasta muito mais energia para correr na mesma velocidade.
Como a gente mede isso na prática?
Na minha consultoria, nós não passamos treino de força no escuro ou no “achismo”. Eu costumo avaliar os meus alunos através de testes de salto (como o CMJ – Countermovement Jump e o Drop Jump).
Cruzando esses dados através de tecnologia simples (como o My Jump Lab), eu consigo ver um raio-x do seu perfil neuromuscular. Eu descubro se você é um corredor “forte, mas lento no chão” ou “reativo, mas sem força bruta”. E é a partir daí que prescrevemos se o seu treino na academia precisa de mais carga pesada (Agachamentos, Levantamento Terra) ou de mais pliometria (Saltos e exercícios de potência).
“Mas a musculação não vai me deixar pesado?”
Esse é o maior mito das assessorias esportivas. Fazer musculação voltada para a corrida não é treinar como um fisiculturista. Ninguém aqui quer que você ganhe 5kg de massa muscular hipertrofiada. O nosso foco é ganho de força neural, potência e estabilidade. Séries mais curtas, cargas desafiadoras e execuções explosivas. Você fica mais forte, não necessariamente maior.
O Veredito do Treinador
Tentar baixar o seu tempo na corrida sem treinar força é como tentar acelerar um carro com o freio de mão puxado. Você até vai para frente, mas vai gastar muito mais combustível e, eventualmente, as peças vão quebrar.
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Referências Científicas:
- Blagrove, R. C., et al. (2018). Effects of Strength Training on the Physiological Determinants of Middle- and Long-Distance Running Performance: A Systematic Review. Sports Medicine.
- Balsalobre-Fernández, C., et al. (2016). The effects of strength training on running economy in highly trained runners: a systematic review with meta-analysis. Journal of Strength and Conditioning Research.